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A solteirice desvelada em livro

Atualizado: 11 de jun. de 2023

Que alegria foi finalizar a produção do meu primeiro livro autoral! Depois que publiquei este site/blog, fui para o pós-doutoramento na Universidade de Lódz, na Polônia e fiz visitas à Universidade Paris Diderot e à Universidade do Porto para cumprir meu plano de trabalho. Foi um ano bem intenso e proveitoso para minha vida acadêmica e pessoal – que considero que andam muito grudadas! Longe do Brasil, eu revisitei a tese que defendi em 2012 sobre a solteirice em Salvador, para produzir o livro, além de trabalhar na pesquisa sobre vivências da solteirice na pandemia, dar aulas, participar de seminários online e presenciais... e viver uma vida bem intensa na gringa! Tanto que não consegui voltar a este blog... Agora já há alguns meses no Brasil, retomo a proposta de alimentar este espaço, compartilhando reflexões, estudos sobre solteirice e temas afins, como propus fazer quando o criei, em 2021. Quero aqui registrar um pouco sobre a produção do livro, seus objetivos e a gratidão que sinto pelas pessoas que colaboraram com esse sonho!


O livro foi escrito nos lugares por onde andei: universidades, restaurantes, hotéis nos países onde passei, e em Salvador, minha morada mais fixa. O livro “A solteirice desvelada: modos de ser e viver como solteira e solteiro em Salvador”, foi publicado pela Editora Appris, no final de 2022 e tem a ilustração feita por Naira Bonfim, que hoje é minha orientanda de mestrado no PPGNEIM/UFBA. Naira conseguiu transmitir a ideia de descontração que expressa um pouco da liberdade das mulheres e homens solteiras/os em Salvador, que tanto falo no livro, em um cenário típico da cidade: a orla da Barra. A olheira do livro foi escrita por Gabriela Hita, professora de Sociologia da UFBA, minha ex e sempre orientadora de Mestrado e Doutorado, e o prefácio foi escrito pela amiga e pesquisadora feminista Valeska Zanello, professora da UnB. Mulheres que tanto me inspiram e me instigam a refletir sobre as questões de gênero contemporâneas! E me desafiam a ser uma pesquisadora melhor.


No pós-doutorado, Julita Czernecka (autora do livro "Single and the city"), socióloga polonesa que me recebeu na Universidade de Lódz, foi a pessoa que mais me incentivou a trabalhar neste livro, quando eu tinha uma pesquisa enooorme para desenvolver com ela sobre vivências da solteirice e pandemia. Agradeço imensamente a Julita pela amizade e incentivo! Produzi este livro olhando para a realidade das pessoas solteiras que tive contato há 10 anos atrás, e ao mesmo tempo, observando as que estavam vivendo na pandemia – participantes do estudo atual. Neste período, conversei com pessoas que havia entrevistado no primeiro estudo. Foi muito legal ver como as que estavam solteiras enfrentaram a pandemia com bravura, retomaram seus projetos e desfrutaram da sua própria companhia. Mas foi bem ruim ver uma das entrevistadas insatisfeita com o rumo da sua vida agora como esposa e mãe, em um país estrangeiro, e não se sentindo tão livre como estava quando solteira. Essas narrativas merecem espaço maior em futuras publicações (já está na minha lista/fila de escritos)!


Preparei o livro “A solteirice desvelada” com muito carinho pelo tema, pelas pessoas que entrevistei, pelas que me auxiliaram na pesquisa de diversas formas, as que torceram por mim e valorizaram o meu trabalho. Agradeço imensamente a todas! Fiz este livro também - e principalmente - para mostrar que há vida fora do casamento, ao contrário do que diz nossa cultura (especialmente a brasileira e baiana), que cria uma grande expectativa em torno da constituição de família (com casamento e filhas/os) para pessoas adultas, e cobra tanto isso, mesmo com muitas mudanças de perspectivas. O estudo que fiz mostrou que ser e viver como uma pessoa solteira pode ser bem gratificante e não é à toa que as pessoas que participaram do mesmo trouxeram com tanta firmeza que a palavra que define a solteirice é liberdade – de ser quem quiser, fazer o que quer, na hora que quer, com quem quiser! Liberdade de escolher pela sua própria vida.


Tem perrengues? Tem sim! Inclusive na restrição de toda a liberdade que a solteirice representa, porque ainda há desigualdades de gênero na nossa sociedade. As violências de gênero são parte do cotidiano de pessoas solteiras, especialmente das mulheres, infelizmente... Mulheres solteiras ainda são importunadas nos espaços públicos, como se estivessem disponíveis sexualmente, muitas têm medo de sair ou viajar só... As solteiras sentem solidão também. Elas são criticadas e cobradas muitas vezes com um comentário sutil, como "Você é tão bonita e inteligente, mas por que não se casou?"... ou agressivo como "Você é uma pecadora e vai para o inferno se continuar nessa vida (de solteira)”. Eu, mulher solteira também, já ouvi muitos desses comentários e me senti limitada quando quis sair sozinha, principalmente em Salvador.


Meio aos perrengues, o estudo mostrou que há muitos enfrentamentos e ousadia de viver e buscar uma vida livre das amarras sociais, e mais condizente com desejos individuais e projetos que são tão diversos e bonitos! Uma vida que não necessariamente tem que ser celibata – pode ser, se assim a pessoa escolher ou for levada pelas circunstâncias –, porque há várias possibilidades de se relacionar afetiva e sexualmente! As práticas em torno da sexualidade também mostram um mundo de diversidade de expressões de desejos que refletem todo um cenário social de transformações na intimidade. Neste campo também dos afetos, as pessoas solteiras mostram a possibilidade de convivências democráticas com pessoas especiais: as/os/es amigas/os/es. As relações de amizade são centrais na vida das/os solteiras/os, e são redes de apoio de grande importância!


Escolhi usar a palavra “desvelar” no título do livro como uma forma de “tirar o véu” do olhar para a solteirice, desvinculando-a do casamento, olhando a solteirice a partir das dimensões “estado civil”, “estilo de vida”, “solidão” e “liberdade”. O livro mostra tudo isso a partir da realidade baiana, diversa e (ainda) conservadora ao mesmo tempo. E que eu fui desvelando a partir do meu trânsito pela cidade, em bares, restaurantes, boates, festas populares, nas entrevistas e grupos focais, nos dados dos questionários... nesse encontro maravilhoso entre quem estuda, o que e quem é estudada/o" Tudo isso na escrita de uma pesquisa feminista, feita com tanto afeto, e que agora apresento publicamente!


O livro está a venda no site da Editora Appris e Amazon


Este texto foi escrito por Darlane Andrade - Professora no Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia




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