Salvador e a solteirice
- Solteirice em Estudo

- há 4 dias
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Neste mês de novembro, a divulgação do Censo populacional destacou a cidade de Salvador como a capital das pessoas descasadas e com um bom número de pessoas solteiras:
"Em 2022, Salvador registrou a maior proporção de população “descasada” entre as capitais brasileiras: 23,8%. O percentual equivale a 1 em cada 5 moradores de 10 anos ou mais - um total de 511.638 pessoas que já haviam vivido em união conjugal, mas não viviam mais." (Jornal Correio da Bahia 5/11/25)
Já o número de pessoas que nunca viveram em união conjugal diminuiu na capital baiana. Em 2022, 31,5% dos moradores (679.425 pessoas) nunca haviam se casado ou vivido em união estável, frente a 37,7% (877.876 pessoas) em 2010. O índice colocou Salvador na 17ª posição entre as capitais. Os maiores percentuais de solteiros foram observados em São Luís (35,6%), Macapá (35,3%) e Teresina (34,7%); os menores, em Porto Alegre (28,0%), Florianópolis (28,1%) e Campo Grande (29,5%).(Jornal Correio da Bahia 5/11/25)
Como pesquisadora da solteirice, considero que o conceito vai abarcar quem nunca se casou e quem já viveu em parceria amorosa, já que a vida de quem não tem um par conjugal pode ser configurada de uma forma específica, inclusive com a construção de um estilo de vida. Há pouco mais de 10 anos concluía a minha pesquisa de tese sobre a solteirice em Salvador e há alguns bons anos venho acompanhando os dados censitários que tem mostrado mudanças significativas em relação ao casamento, ao divórcio, à separação e ao não casamento, tais como o aumento de uniões informais, aumento das taxas de divórcio e separação, aumento da idade ao casar (principalmente para as mulheres) e também do crescente número de pessoas que não se casam na vida adulta.
As mudanças refletem transformações sociais e nos comportamentos de homens e mulheres que adotam formas de viver mais diversas quando o casamento como instituição (compulsória) para a vida adulta, passa a ser questionado e começa a ganhar outras configurações - mais diversas e flexíveis, quando a máxima passa a ser a de Vinícius de Moraes "que seja eterno enquanto dure" e principalmente quando as violências conjugais passam a ser reconhecidas e denunciadas. A vida de solteiro(a) também tem ganhado novos sentidos, mais positivos, quando a liberdade que a caracteriza acaba sendo um atrativo para permanecer nela.
No estudo de tese (que gerou o livro "A solteirice desvelada"), a liberdade foi o principal sentido atribuído à solteirice, e estava atrelada ao gerenciamento da rotina, do tempo para organizar a casa, para fazer escolhas em relação às atividades de lazer e ao exercício da sexualidade - apesar de que as mulheres não consideravam que tinham com tanta liberdade sexual como os homens. A cidade de Salvador foi vista como um lugar bom para ser uma pessoa solteira por proporcionar atividades variadas de lazer e possibilidades de encontros amorosos/sexuais. O "clima de Carnaval", contudo, não predomina o ano inteiro e houve quem relatasse limitações para transitar na cidade à noite, principalmente mulheres solteiras que ficam mais suscetíveis à importunação sexual em espaços de lazer.
A liberdade e as limitações vivenciadas por pessoas solteiras em Salvador mostram a complexidade desta cidade e merecem investida em próximos estudos, captando nuances da solteirice para dar visibilidade a este lugar social e identitário.
Darlane Andrade - Professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia





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